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quinta-feira, 5 de abril de 2012

domingo, 4 de dezembro de 2011

falsa letargia




a mesma luz que me cega
pode ser a que orienta
o meu carrasco maior
é o meu melhor olho

não sei de que doença sofro
e devo estar me curando
não creio em verdade alguma
e vivo procurando

etéreo é o mundo que me rege
são tantas lutas
tantas faltas e culpas
quem me ampara e sustenta?

sábado, 29 de outubro de 2011

escarlate


enquanto todos os sonhos
se vão com o vento seco
e com as folhas avermelhadas
que parecem rir de bobagens
arrastadas junto com o pó

ela está ali convicta
imaginando que nada poderá
tirar a luxúria de seus olhos
que miram a vastidão horizontal
de um tempo tão ido, tão ido

pobre princesa rubra
assiste passiva sua imagem
espelhada em mil faces falsas
que gargalham entre si
e ela jura que é amor

queria voltar à inocência
que havia antes do vento
arrancar-me as folhas
antes das tempestades
levarem galhos e âmbar

rica princesa rubra
assiste passiva sua imagem
espelhada em mil faces de si
e gargalha entre imagens
e ela sabe que é amor.

terça-feira, 12 de julho de 2011

é agora réstia





você, forasteiro próspero
sorri em minha tez
deixando supores
de minha epiderme

um tesão ocre
que reveste o hálito
e os lábios
de quem chora

O gosto da limalha
e da saudade
amarga a boca
antes beijada

atesta sem freio
esse poema obtuso
que reafirma a soma
de anseios e explora

sua audácia abriu sulcos
e liberou o glacial
da espinha ao córtex
fez-me nave vaga

declínio sob a mão
concreta e leve para tocar
uma resma, uma réstia
uma curva a me guiar

passo rumo ao parto
sutura e corte profano
pacto silencioso em gozo
da sua ilíaca e minha pele.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

da mansidão



declino nas noites
de não
estrago tudo tentando
acertar
e o tempo acaba
como as ampulhetas cegas
que cospem areia
impunemente

num passado próximo
viajei aos remansos
onde a calma se instalava
quando nosso querer
não era convulso
quando não abatia-me
o pulso
quando não tinha
o medo de errar


melhor seria
a ignorância
melhor não saber
da mansidão
que deitá-la
em seu ventre
e a desejar
constantemente

sexta-feira, 10 de junho de 2011

abstrato



estou frágil e me engano
tantas são as cores
que pincelam a ilusão
que é fácil baixar a guarda
minha capital é caos
nalguma falésia sua

terça-feira, 7 de junho de 2011

dorme,





e quando acorda nada diz
enquanto ela veste o manto negro
e sai

desce as escadas
sem olhar pra trás
tomada de algo novo
quase nocivo

rememora o caminho
de volta e ignora
a Constante Ramos
com a Barata Ribeiro

esquece suas unhas carmim
que defloraram o úbere
e as horas insones
sobre o dorso dele

dorme,
que foi só um sonho bom
e ela só levou-te a pele
sob suas unhas
e deixou gozo sobre seus ais

a mulher adormece deusa
e acorda puta
cata suas sombras
disformes, inodoras
e some

dorme,
e quando acordar nada diz
enquanto ele se cala sob o negro
e vai.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

cravo



rubro distendido
entre meu dente
e palato

entardece-me

quarta-feira, 16 de junho de 2010

erva daninha



o triste é se adaptar
não querer ser como todos
ser o amor mórbido
desses que ferem e matam
amor-trepadeira
que no seu devaneio
seca e mata
o ser amado.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

rósea





despetalou-se
entre meus
dedos frios

das flores que não serão fruto




ouso tocar a figa
antes tardia
e vaga
que estéril

quinta-feira, 18 de março de 2010




Sim







Chove uma tormenta dentro da



minha alma. Sou gente velha, gasta.



Andarilho maluco de pés de barro e



cabeça de copa em flor. Vivo a descer



rios oceânicos, assim miseravelmente,



como uma folha creme manga na enxurrada



ruas íngremes. Meu hálito é cravo e boemia.



Embriago-me de tudo, da beleza do mundo e da



ternura do amor. Mergulho nos bares, em filosofias



intermináveis, no que não foi realizado e tornou-se sonho.



E assim renasço puro em cada pessoa que toquei com minhas



palavras em vapor.

sexta-feira, 12 de março de 2010

dois dedos
















até onde os mínimos
alcançarem
onde os máximos
encostem

do que me resta choro
esfrego chinelos
lavo muito os cabelos
por vezes esqueço as orelhas
e suspiros no banheiro

maybe
não seja necessário
se banhar tanto
a sujeira sacia o homem
baby

da superfície do whisky
à profundidade do drinque
duas pedras
dois dedos

medidas imediatas
do equivalente

mercante













espelhos tortos
eu me vendo
vendo-te, amor
vende-me, amor!

reflito, reflete?

quinta-feira, 11 de março de 2010




Com mãos de atiradeira

lanço meus olhos para

o céu hiante. É um mergulho

sideral de merlin num

aquário sem vidro e sem ar.



Estar contido



É a alcunha do engano não

admitido. Nada nos têm. Somos

delicada manhã no orvalho espelhada.



Transparência ao ser e não existir



É preciso seguir...



Deitar meu sonho para sonhar

meus sonhos, pois tudo é

tão perfume, tudo é tão o que é.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

canino I



Série Arcada

canino

I
mordedura revelada
sem ater-se à presa
ou à agonia
do olho dilacerado

quatro lâminas a se tocar
nas pontas afiadas saboreia
a devoção ao sangue
refestelada na língua

entrega-se aos recortes
miúdos e quase mudos
à dor alheia
à liberdade entre os dentes

e ao nocauteado resta a lona
os caninos cravados
na nervura da carne
do confete rubro no chão.


a solidão não me aflige mais
esse estágio passageiro
de quando não me basto
vasto à sangria das horas fúteis
entregue à loucura do tempo

vivi o aconchego do estrangeiro
que se entrega ao banho amoroso
de um estar novo e febril
desenhei seus olhos famintos
e deleitei-me em elogios ao profano

mas ao me perceber só diante de mim
desisti da utopia do querer
não há dor maior que o amor
que nasce, goza e morre só
nuvem torpe que cega e chove

a vida me aflige mais
tormento constante de ser
mais um derrotado e ignorante
que crê firme na vitória com luta
e devota-se à paixão insana.

domingo, 13 de dezembro de 2009



Fotocópia

tatuados
na língua
esporos teus

transcritos
em falo
de outrem.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009



brusco tomou-me os sentidos, não esperava
não pediu nada além do que poderia
dois dias, três noites, é só o que lembrava
um falsete articulado, o que mais queria

ríamos dos outros, e atrevemos nós
sem demora, sem explicações, soltos
libertos de regras e roteiro, sós
para esquecer temeridades dos ocos

reencarnações, carmas, vidas previstas
em um quarto de utopias e sonhos de papel
olhos vidrados um noutro, torre de babel

perdões vendidos com flores por algum trocado
simulando de amores que poderiam estar ao lado
e em contrato nos perdemos, dores revistas.





A ponta aguda da flecha reluz em prata.
Destino exato! Mãos desenhadas para o preciso.

O vento deveras perfumado brisa ao ser cortado

em sua invisibilidade. A folha cai com o movimento
e flutua como pluma até o chão molhado.

O arco faz papel de harpa na solidão.

Lança-se a seta e faz-se à música
minimalista do clérigo. Nota que mareja seus
olhos de águia no alvo infindo dentro de si.

O dia termina no recomeço da noite.

No ciclo de luz e estrelas que faz a tradição de
quem vive a procura de si mesmo!

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

ensaio vermelho



canção tingida
encarnada boca rija
chicote ímpio
das esquerdas, de paixões
devassidões e taras
conjugar-te rubro
flameja-me escarlate.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009















Mãos trêmulas anseiam o toque
Frias, laudatórias
Esboçam a insegurança do ser
Tardias, fracas, tentam a aproximação
Não se expõem, são furtivas,
Lascivas, num motim visceral e intenso

Não há compreensão nas mãos
Elas por si só são confusas
São farrapos corpóreos
Que não obedecem o consciente
Agonizam em sagas desejosas,
Atômicas, nauseantes, despudoradas,

Mãos sempre almejam algo secreto
Algo que faz doer o peito arfante
Trazem nos dedos a chaga poética
Uma aura desperta
Calada e inconformada,
Infelizes, as mãos ainda anseiam o toque.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Segunda elegia






















o homem perturbado
dialoga com a vida
e há quem diga
que é um baseado
ou que é heroína
mas ele encena
a luta diária
de se dar por nada, na perda
no movimento do outros.

o homem entende
com seus olhos invertidos
vê o que ninguém mais consegue
enxuga seus lábios tardios
enfastiados de agonia
para tentar ser feliz
vomita Euclides da Cunha
e drogas ilícitas
para se livrar das grades.

o homem interna-se
só há grades nos outros
no mundo e em si
no retrair do músculo
na tensa paz vazia
nas ocupações diárias
tenta ser livre
e solta seu verbo
na Jaceguaí.

o homem olha-se
e não vê-se completo
vê-se coagido e liberto
e dança parado
com a fumaça do fumo
e se vai com ela
como se fosse o único
a ver, a sentir, amar e perder
tudo que desejou na vida.

terça-feira, 10 de novembro de 2009























caminho septado
em vias desativadas
de sonhos quebrados
por engano cognitivo
paisagem amorfa
derretida nos castiçais
em chama azul densa
de devaneios idílicos
o caminhante confuso
por vezes se perde
sem saber voltar
sem querer seguir
quer apenas contemplar
oculta estrada
entre o negro
e o nada
que desce
sem intenção
semântica
e se afoga
em quadros de Dali.