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quarta-feira, 16 de julho de 2014

demasia


que era água, chuva, imersão
sem desertos, incertezas
que era raiz tronco 
imensidão

que não é só a miséria e a fome
a míngua e a aversão
o excesso também mata
declina qualquer vão

de tanta luz a imagem some
a angústia do zelo cessa o tesão
a virtude de amor acata
o que a demasia joga ao chão


segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Van Gogh


há quem queira justificar a falha
com o homem
há quem dite as cartas
ao telefone
há quem exija amar
sem fome
e há quem veja girassóis
sem saber o nome

olhar vazio

quando em mim
suas imagens não se refletem
sou Narciso sem lago
sou a presença na ausência
luz onde não há escuridão

prendi meu olhar nos vultos
e eles cegos e omissos
desapareceram
como visões
em ciclos de loucura

onde hei de procurar
os mesmos olhos que me vêem
onde hei de encontrar
olhar assim tão vazio?

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

caídos



vide olhos embotados
não os que Chico cantou
nem mais, nem menos
os que esmoreceram
sob aquele que emudeceu

vide sonhos caídos
talvez desbotados
vazios, acinzentados
enquanto o outro endurece

vide então, a sobra
o movimento nas pedras
que cantam, falam,
e por vezes, choram

terça-feira, 12 de março de 2013

arrancou-me o olho esquerdo


sei que pedi para ficar só
e colocou a mão debaixo de meu soul
sei que arranquei seu pequeno coração
e seu olho de vidro só refletia o meu

eu já estava suja
ele não era lá essas coisas
mas sei que o fiz chorar
por um tempo transpirou-me Orfeu

nossos nomes eram sinônimos
só queríamos luxúria, caos e dor
roubamo-nos como era para ser
eu e ele, ele e eu

por fim, só por diversão
arrancou-me o olho esquerdo
deixou que apodrecesse
e me devolveu



quanto


trago a chave da escuridão
cravada no peito
erros tatuados na pele
nada foi claro ou reluzente
durmo com dois olhos abertos

quero que diga meu nome
o sussurre quando estiver sozinho
quando nada puder ser feito
se quiser fugir para perto

me diz baixinho o que sobrou da gente
e não me venha de olhos fechados
que esperam beijos em pálpebras
nem com essas mãos delicadas
que tocam espectro de crenças
e sonhos com a vida passada

certeza é que nunca seremos transparentes
aquela que foi melhor pior noite
e talvez me esqueça dela
como me esqueci de tantas
pagou meu preço
e foi justo

eterno velar


tocou-me com suas palavras
e seu hálito nefasto
incitou-me tormentas adormecidas
e as horas se esqueceram
do tempo e viraram prurido

apesar de tantas mortes por fumo
apesar de tantas dores sem prumo
perpetuamos essa saga mórbida
um velando o outro

o verbo permanece ferindo
meu silêncio quase falo de ruínas
quase sufoco ao ponderar no escuro

desde então vivo na fraqueza
desde então sou a miséria
espelhos queimando
um na fogueira do outro

pobres almas espelhadas

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

e quantas vezes já pedi


para que não me olhe assim
com esse olhar inocente
que veste tanto carmim

é injusto cantar o hoje insistente
como quem olha a vida por um fio
como quem joga pedras impunemente

meu filho, eu sigo cego
quem dera fosse só a vida
quem dera não fosse o cílio do ego

e quantas vezes já pedi que permaneça
que seja sereno em suas escolhas
queria pedir: não cresça, não cresça!


quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

avesso retrato


há quem me encontre 
em grafites na Augusta
esperando por olhares 
desapercebidos

há quem não espere 
nada além de pinturas
turvas pela fuligem
tijolos tingidos

e entre flores negras
choro a angústia do meio
ganhando olhares 
esquecidos

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

refletida


eu...

teimo no lado errado, tão certo
no traço torto, tão reto
numa angústia que anseia
sua mão e agrado

sentir de novo
o peito arfante
a falta de fôlego
e tudo emergido no silêncio
a quietude  assustadora

eu...

perdida, querido
como estive por vezes e vezes
trocando-me por moeda fraca
amor por amor
ilusão por ilusão

uma vida ou dez
por qualquer toque
por qualquer noite
por um beijo 
e que seja seu

refletida


eu...

teimo no lado errado, tão certo
no traço torto, tão reto
numa angústia que anseia
sua mão e agrado

sentir de novo
o peito arfante
a falta de fôlego
e tudo emergido no silêncio
a quietude  assustadora

eu...

perdida, querido
como estive por vezes e vezes
trocando-me por moeda fraca
amor por amor
ilusão por ilusão

uma vida ou dez
por qualquer toque
por qualquer noite
por um beijo 
e que seja seu

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

a queda



foi mais alta
e dessa vez acreditei
que não ia me levantar
são as rasteiras da vida

e eu poderia dizer
pode me ajudar
pode me socorrer
pode me salvar?

mas o orgulho não é nulo
e de certo modo
me fez sangrar
sozinho e no escuro

quando perdi o controle
e a direção, não havia ninguém
não haviam olhos
nem orelhas pra me guiar

a queda foi brusca
e quis desistir
mas fixei-me no horizonte
e decidi seguir só.

a sintaxe da realidade



agora, me diz o que decora
as torres doces de seu jardim
decola seus sonhos vastos no escruro
suas vagas proles no muro


mal as coisas se pronunciam
e já declinam sobre o real
deixam de ser
tento em vão perpetrar
mas é o fim que propago
é o fim

meus sentidos pedem a inércia
me enganam e morro pelo inimigo
o mais próximo que se diz amigo
que só me fere por ter entrado
pela porta da frente que eu abri

toma-me sem pedir o que a princípio
deveria ser apenas meu
e por fim aniquila-me sem morte
seja lenta ou honrosa
e as palavras se calam

todas

vi que mal preciso das palavras
antes muda e cega
para não interagir com esse mundo cão
se acho favo é mais que amargo
o diáfano da leveza pálida e viscosa
é mesmo o silêncio.

a menina que semeava papoulas


jogava ao solo aqueles pontinhos pretos
como se fossem pontos finais
esperando milhões e milhões
de minúsculos recomeços
e sob visões de pupilas dilatadas
aquela criatura caminhava em campo aberto
o vento arrastava suas saias e ela se divertia
como uma besta fera sorria estridente
seus pés avermelhados pela terra
afundavam no morno que o sol deixava
e a vida dentro da própria vida era surreal
as sementes eram bombas sobre o chão arado
as mãos devotadas ao prazer despretensioso
do toque daquelas minúsculas cápsulas
refaziam incessantes os movimentos
de captura e liberdade suprema
mal sabiam da colheita.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

sombra amarela



doravante, cansado desiste
e mudo reluta contra o que foi
vê que seu sorriso abandonou formas
e já não adorna seu semblante

será que algo voltará a ser
como foi antes?

domingo, 4 de dezembro de 2011

falsa letargia




a mesma luz que me cega
pode ser a que orienta
o meu carrasco maior
é o meu melhor olho

não sei de que doença sofro
e devo estar me curando
não creio em verdade alguma
e vivo procurando

etéreo é o mundo que me rege
são tantas lutas
tantas faltas e culpas
quem me ampara e sustenta?

sábado, 29 de outubro de 2011

escarlate


enquanto todos os sonhos
se vão com o vento seco
e com as folhas avermelhadas
que parecem rir de bobagens
arrastadas junto com o pó

ela está ali convicta
imaginando que nada poderá
tirar a luxúria de seus olhos
que miram a vastidão horizontal
de um tempo tão ido, tão ido

pobre princesa rubra
assiste passiva sua imagem
espelhada em mil faces falsas
que gargalham entre si
e ela jura que é amor

queria voltar à inocência
que havia antes do vento
arrancar-me as folhas
antes das tempestades
levarem galhos e âmbar

rica princesa rubra
assiste passiva sua imagem
espelhada em mil faces de si
e gargalha entre imagens
e ela sabe que é amor.

terça-feira, 12 de julho de 2011

é agora réstia





você, forasteiro próspero
sorri em minha tez
deixando supores
de minha epiderme

um tesão ocre
que reveste o hálito
e os lábios
de quem chora

O gosto da limalha
e da saudade
amarga a boca
antes beijada

atesta sem freio
esse poema obtuso
que reafirma a soma
de anseios e explora

sua audácia abriu sulcos
e liberou o glacial
da espinha ao córtex
fez-me nave vaga

declínio sob a mão
concreta e leve para tocar
uma resma, uma réstia
uma curva a me guiar

passo rumo ao parto
sutura e corte profano
pacto silencioso em gozo
da sua ilíaca e minha pele.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

da mansidão



declino nas noites
de não
estrago tudo tentando
acertar
e o tempo acaba
como as ampulhetas cegas
que cospem areia
impunemente

num passado próximo
viajei aos remansos
onde a calma se instalava
quando nosso querer
não era convulso
quando não abatia-me
o pulso
quando não tinha
o medo de errar


melhor seria
a ignorância
melhor não saber
da mansidão
que deitá-la
em seu ventre
e a desejar
constantemente

sexta-feira, 10 de junho de 2011

abstrato



estou frágil e me engano
tantas são as cores
que pincelam a ilusão
que é fácil baixar a guarda
minha capital é caos
nalguma falésia sua

terça-feira, 7 de junho de 2011

dorme,





e quando acorda nada diz
enquanto ela veste o manto negro
e sai

desce as escadas
sem olhar pra trás
tomada de algo novo
quase nocivo

rememora o caminho
de volta e ignora
a Constante Ramos
com a Barata Ribeiro

esquece suas unhas carmim
que defloraram o úbere
e as horas insones
sobre o dorso dele

dorme,
que foi só um sonho bom
e ela só levou-te a pele
sob suas unhas
e deixou gozo sobre seus ais

a mulher adormece deusa
e acorda puta
cata suas sombras
disformes, inodoras
e some

dorme,
e quando acordar nada diz
enquanto ele se cala sob o negro
e vai.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

cravo



rubro distendido
entre meu dente
e palato

entardece-me

quarta-feira, 16 de junho de 2010

erva daninha



o triste é se adaptar
não querer ser como todos
ser o amor mórbido
desses que ferem e matam
amor-trepadeira
que no seu devaneio
seca e mata
o ser amado.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

quinta-feira, 18 de março de 2010




Sim







Chove uma tormenta dentro da



minha alma. Sou gente velha, gasta.



Andarilho maluco de pés de barro e



cabeça de copa em flor. Vivo a descer



rios oceânicos, assim miseravelmente,



como uma folha creme manga na enxurrada



ruas íngremes. Meu hálito é cravo e boemia.



Embriago-me de tudo, da beleza do mundo e da



ternura do amor. Mergulho nos bares, em filosofias



intermináveis, no que não foi realizado e tornou-se sonho.



E assim renasço puro em cada pessoa que toquei com minhas



palavras em vapor.

sexta-feira, 12 de março de 2010

dois dedos





























até onde os mínimos
alcançarem
onde os máximos
encostem

do que me resta choro
esfrego chinelos
lavo muito os cabelos
por vezes esqueço as orelhas
e suspiros no banheiro

maybe
não seja necessário
se banhar tanto
a sujeira sacia o homem
baby

da superfície do whisky
à profundidade do drinque
duas pedras
dois dedos

medidas imediatas
do equivalente

mercante













espelhos tortos
eu me vendo
vendo-te, amor
vende-me, amor!

reflito, reflete?

quinta-feira, 11 de março de 2010




Com mãos de atiradeira

lanço meus olhos para

o céu hiante. É um mergulho

sideral de merlin num

aquário sem vidro e sem ar.



Estar contido



É a alcunha do engano não

admitido. Nada nos têm. Somos

delicada manhã no orvalho espelhada.



Transparência ao ser e não existir



É preciso seguir...



Deitar meu sonho para sonhar

meus sonhos, pois tudo é

tão perfume, tudo é tão o que é.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

canino I



Série Arcada

canino

I
mordedura revelada
sem ater-se à presa
ou à agonia
do olho dilacerado

quatro lâminas a se tocar
nas pontas afiadas saboreia
a devoção ao sangue
refestelada na língua

entrega-se aos recortes
miúdos e quase mudos
à dor alheia
à liberdade entre os dentes

e ao nocauteado resta a lona
os caninos cravados
na nervura da carne
do confete rubro no chão.


a solidão não me aflige mais
esse estágio passageiro
de quando não me basto
vasto à sangria das horas fúteis
entregue à loucura do tempo

vivi o aconchego do estrangeiro
que se entrega ao banho amoroso
de um estar novo e febril
desenhei seus olhos famintos
e deleitei-me em elogios ao profano

mas ao me perceber só diante de mim
desisti da utopia do querer
não há dor maior que o amor
que nasce, goza e morre só
nuvem torpe que cega e chove

a vida me aflige mais
tormento constante de ser
mais um derrotado e ignorante
que crê firme na vitória com luta
e devota-se à paixão insana.

domingo, 13 de dezembro de 2009

fotocópia



tatuados
na língua
esporos teus

transcritos
em falo
de outrem.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009



brusco tomou-me os sentidos, não esperava
não pediu nada além do que poderia
dois dias, três noites, é só o que lembrava
um falsete articulado, o que mais queria

ríamos dos outros, e atrevemos nós
sem demora, sem explicações, soltos
libertos de regras e roteiro, sós
para esquecer temeridades dos ocos

reencarnações, carmas, vidas previstas
em um quarto de utopias e sonhos de papel
olhos vidrados um noutro, torre de babel

perdões vendidos com flores por algum trocado
simulando de amores que poderiam estar ao lado
e em contrato nos perdemos, dores revistas.





A ponta aguda da flecha reluz em prata.
Destino exato! Mãos desenhadas para o preciso.

O vento deveras perfumado brisa ao ser cortado

em sua invisibilidade. A folha cai com o movimento
e flutua como pluma até o chão molhado.

O arco faz papel de harpa na solidão.

Lança-se a seta e faz-se à música
minimalista do clérigo. Nota que mareja seus
olhos de águia no alvo infindo dentro de si.

O dia termina no recomeço da noite.

No ciclo de luz e estrelas que faz a tradição de
quem vive a procura de si mesmo!

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

ensaio vermelho



canção tingida
encarnada boca rija
chicote ímpio
das esquerdas, de paixões
devassidões e taras
conjugar-te rubro
flameja-me escarlate.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Mãos trêmulas anseiam o toque




















Frias, laudatórias
Esboçam a insegurança do ser
Tardias, fracas, tentam a aproximação
Não se expõem, são furtivas,
Lascivas, num motim visceral e intenso

Não há compreensão nas mãos
Elas por si só são confusas
São farrapos corpóreos
Que não obedecem o consciente
Agonizam em sagas desejosas,
Atômicas, nauseantes, despudoradas,

Mãos sempre almejam algo secreto
Algo que faz doer o peito arfante
Trazem nos dedos a chaga poética
Uma aura desperta
Calada e inconformada,
Infelizes, as mãos ainda anseiam o toque.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Segunda elegia



























o homem perturbado
dialoga com a vida
e há quem diga
que é um baseado
ou que é heroína
mas ele encena
a luta diária
de se dar por nada, na perda
no movimento do outros.

o homem entende
com seus olhos invertidos
vê o que ninguém mais consegue
enxuga seus lábios tardios
enfastiados de agonia
para tentar ser feliz
vomita Euclides da Cunha
e drogas ilícitas
para se livrar das grades.

o homem interna-se
só há grades nos outros
no mundo e em si
no retrair do músculo
na tensa paz vazia
nas ocupações diárias
tenta ser livre
e solta seu verbo
na Jaceguaí.

o homem olha-se
e não vê-se completo
vê-se coagido e liberto
e dança parado
com a fumaça do fumo
e se vai com ela
como se fosse o único
a ver, a sentir, amar e perder
tudo que desejou na vida.

terça-feira, 10 de novembro de 2009



























caminho septado
em vias desativadas
de sonhos quebrados
por engano cognitivo
paisagem amorfa
derretida nos castiçais
em chama azul densa
de devaneios idílicos
o caminhante confuso
por vezes se perde
sem saber voltar
sem querer seguir
quer apenas contemplar
oculta estrada
entre o negro
e o nada
que desce
sem intenção
semântica
e se afoga
em quadros de Dali.